Cabeludos e
barulhentos
15 Novembro
2013, 14:09 por João Cândido da Silva, Miguel Baltazar - Fotografia
Quando a
"beatlemania" tomou conta do Mundo, a imprensa portuguesa recebeu o
fenómeno com cepticismo. Os cabelos compridos tinham mais importância do que a
música, qualificada como barulho e acusada de não ter trazido qualquer
inovação. Psicólogos e sociólogos eram considerados as pessoas certas para
analisarem o frenesim. No fim, o talento dos Beatles acabou por se impor aos
preconceitos.
Abel soares
Rosa,
fotografado com alguns dos discos que integram a sua colecção. Entre os
tesouros inclui-se a colectânea "Yesterday and Today", de 1966, com a
capa original em que os Beatles surgem rodeados de bonecas decapitadas e
pedaços de carne. A imagem geraria escândalo e acabaria por ser substituída.
"Os
Beatles não fazem arte. Fazem escândalo. Eles rebentam as resistências emocionais
e provocam reacções incontroladas. Uma plateia atacada de contracções beatlícas
[sic] é um espectáculo degradante, no qual, ainda assim, quem se porta com mais
juízo são os quatro cabeludos no palco. Inverte-se o resultado: eles é que
gozam o espectáculo!". O editorial da revista "TV" é duro para a
banda nascida em Liverpool. Mas resume o tom geral de algumas das avaliações
que foram publicadas na imprensa portuguesa durante o período em que a
"beatlemania" atravessou o auge.
Provavelmente sem o querer, o autor desta apreciação ao desempenho dos Beatles,
publicada em Setembro de 1964, até acertou em cheio num aspecto. Mais tarde,
quando a poeira assentou e os Beatles deixaram de ser acolhidos por multidões
ululantes que, durante os concertos, abafavam os sons produzidos pela banda, o
guitarrista George Harrison comentou que, nos primeiros anos de sucesso,
parecia que todo o Mundo tinha enlouquecido e que as únicas pessoas sãs que
restavam à face da Terra eram os quatro elementos dos Beatles.
A citação integra o livro "Os Beatles na Imprensa Portuguesa,
1963-1972", uma edição de autor de Abel Soares Rosa, em que são reunidas
capas e recortes de revistas. Os documentos dão conta de como o fenómeno dos
"fab four" foi acompanhado pelo menos por uma parte da comunicação
social até à separação, na música e nos negócios, de John Lennon, Paul
McCartney, George Harrison e Ringo Starr.
O autor é fã dos Beatles e coleccionador do mais diverso material relacionado
com a banda (ver texto anexo). Para concretizar o projecto, recorreu ao seu
arquivo e acrescentou "dois exemplares, cortesia de Luís Pinheiro de
Almeida", autor de um dos textos de introdução, ao lado de Hunter Davis,
responsável por uma das biografias de referência dos Beatles. Perante a abundância
de matéria-prima, Abel Rosa afirma que "o mais difícil foi fazer a
selecção. Tinha material para dois livros".
O livro reproduz artigos publicados numa época em que a censura do Estado Novo
mantinha um olhar atento a tudo o que pudesse soar a suspeito. E se houve
atitude com que os Beatles foram recebidos foi a suspeição e o cepticismo
indisfarçados. São descritos como jovens "barulhentos e cabeludos",
acusados de não terem trazido "nenhuma inovação" em matéria musical,
produto de uma poderosa máquina de propaganda e engavetados no estatuto de
fenómeno que exigia uma explicação de psicólogos e sociólogos.
Nos primeiros tempos, a música é remetida para um plano secundário e a
aparência dos seus elementos é o assunto a que é dada mais relevância. A
revista "TV" garante, em Setembro de 1964, que os cabelos de John,
Paul, George e Ringo são "autênticos, talvez o mais autêntico deles".
Pouco mais de um ano depois, a mesma publicação sublinha haver fabricantes de
cabeleiras, que imitam os penteados dos Beatles, a trabalharem para dar
resposta a vendas de 150 mil exemplares por semana. Na "Flama" de
Fevereiro de 1964, escreve-se que os "fab four" "descobriram
(simplesmente) a fórmula para ganhar dinheiro (...). Berram, saltam, fazem
barulho".
A abordagem ao trabalho dos Beatles acaba por mudar e a música ganha
preponderância. Em Agosto de 1967, o "Século Ilustrado" analisa o
álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e até publica as letras
das canções. Em Outubro de 1969, dá três páginas à crítica do "Álbum
Branco", incluindo um texto dedicado a cada uma das suas 30 faixas.
Premonitória, a "Flama" de Outubro de 1969 edita um artigo sobre a
possibilidade de separação da banda, intitulado "Adeus, Beatles".
Desta vez, não se enganou.
Saiba mais
Ringo Starr deu um concerto em Portugal no dia do
encerramento da Expo 98 e Paul McCartney abriu a edição de 2004 do festival
"Rock in Rio". Mas estes dois eventos estão longe de serem os únicos
pontos de contacto entre Portugal e os membros da banda de Liverpool.
O livro
"Beatles em Portugal" revela que McCartney escreveu a letra de
"Yesterday" durante uma viagem entre Lisboa e Faro, em 1965, e
descreve as circunstâncias em que o músico compôs um tema intitulado
"Penina", enquanto gozava uma segunda estadia no Algarve, três anos
mais tarde. As ligações entre os "fab four" e o país, investigadas e
reveladas neste livro, incluem um capítulo sobre o fabricante português dos
cavaquinhos de que George Harrison era grande apreciador e pormenores como a
discreta escala que Paul McCartney e Ringo Starr fizeram em Lisboa, com
pernoita no Hotel Ritz, quando, em 1964, se encontravam em trânsito para um
período de férias nas Ilhas Virgens.
Dez questões
sobre os Beatles
Abel Rosa
descobriu os Beatles durante o Mundial de 1966. Acha que não gostar de
"Ob-La-Di Ob-La-Da" é coisa de "gajos de óculos" e rejeita
a tese que acusa Yoko Ono de ter sido a "bruxa" que desfez a banda.
1. Qual foi a primeira canção dos Beatles que ouviu, quando e onde?
Foi durante o Mundial de futebol de 1966, onde os "magriços" e
Eusébio eram notícia constante. À última hora, o jogo entre Portugal e
Inglaterra mudou de Liverpool para Wembley, em Londres. Algures num programa da
RTP tinha ouvido uma notícia, para mim, enigmática: "Eusébio na terra dos
Beatles". De seguida, passaram as imagens e os sons de um grupo de jovens,
cheios de ritmo, que cantavam qualquer coisa que acabava em
"ié-ié-ié".
2. Qual é o
segundo melhor álbum dos Beatles? Porquê?
O segundo melhor muda todas as semanas, porque o melhor também muda todos os
dias. Os Beatles têm a arte de surpreender sempre que os ouvimos. O segundo
melhor é aquele a seguir a "Rubber Soul". Hoje, é
"Revolver". "Rubber Soul" é eterno, mas, amanhã, sábado, é
a vez de "Please, Please Me". No domingo, veremos.
3.
"Ob-La-Di Ob-La-Da" é a canção mais foleira dos "fab four"?
Gosto de "Ob-La-Di Ob-La-Da". É uma música simples, 'ska' ou falso
'reggae'. Nunca percebi o preconceito contra esta canção, coisa de 'gajos de
óculos'. Além do mais, é o título do programa de rádio da RFM, entre 1988 e
1991, de Luís Pinheiro de Almeida e Teresa Lage que, durante três anos, nos
deram tudo e mais alguma coisa sobre os Beatles. A vida é "Ob-La-Di Ob
La-Da". É preciso mais?
4. Qual
prefere? "Yesterday" ou "Tomorrow Never Knows"?
"Yesterday" é uma grande canção, tem milhares de versões e letra
escrita em Portugal. Mas "Tomorrow Never Knows" é uma das minhas
favoritas, pelo 'loop', a modernidade, o som surpreendente, com Ringo e a sua
prestação exímia. O génio de Lennon em 1966, experimentem ouvir hoje, continua
actual.
5. Yoko Ono
é a culpada da separação dos Beatles?
É um lugar-comum que continua bem vivo. Deixem a Yoko em paz. Muitos fãs
apontam-na como a 'bruxa', mas ela não foi mais do que a mulher da vida de John
Lennon. O resto é mito. Os Beatles acabaram porque já não se entendiam e já não
conseguiam comunicar. Foi uma zanga entre irmãos.
6. Onde
gostava de ter estado no dia 1 de Junho de 1967?
Em Londres, a sair do autocarro em Oxford Street e a pisar o tapete vermelho na
entrada da majestática HMV, de modo a adquirir a primeira edição de "Sgt
Pepper's Lonely Hearts Club Band" no dia de lançamento e, quem sabe,
recolher um autógrafo dos quatro Beatles.
7. Quem
preferia ser? Jimmy Nichol ou Pete Best?
Qualquer um deles. Partilhar o palco com John, Paul e George, nem que fosse por
cinco minutos, era motivo para ficar na história. Pete Best andou por Liverpool
e Hamburgo, mas ficou pior na fotografia. Foi despedido e afastado sem glória.
Jimmy Nichol cumpriu bem o seu papel de Beatle temporário, substituindo Ringo
Starr durante a primeira 'world tour', em 1964, de 4 a 15 de Junho, por doença
do Beatle.
8. Onde
estava quando recebeu a notícia da separação dos Beatles?
Estava para os lados do Índico, em Moçambique, na cidade de Nampula. O meu pai
era militar e a rádio (sempre a rádio) deu a notícia. Só mais tarde entendi que
os Beatles nunca acabaram.
9. Qual é a
banda que já chegou aos calcanhares dos Beatles?
Todas as que trabalharam intensamente, as que fizeram 'sets' de 12 horas, oito
dias por semana e em espeluncas de bairro. Aos calcanhares não conheço. Lá mais
para baixo há algumas e boas e há sempre um miúdo que nos surpreende, por
exemplo, Jake Bugg.
10. Se
fizesse um inquérito em que o tema fosse os Beatles, que pergunta colocaria? Já
agora, faça a pergunta e dê a resposta.
'Gosta dos Beatles? Porquê?' Gostar dos Beatles é ter o imenso prazer de os
ouvir num gira-discos mono, ler uma biografia autorizada, pendurar um cartaz
'vintage' do filme "Help", brincar com um 'yellow submarine' da Corgi
Toys e, no final, sentir a imensa alegria e a generosidade da arte dos quatro
de Liverpool. Os Beatles revolucionaram a música popular. Cinquenta anos depois
do seu primeiro disco, muitos de nós, multi-gerações, ainda procuramos abrigo
nas suas músicas.
A colecção
que já não sabe a quantas anda
"Os
Beatles não são um 'hobby', são uma paixão", diz Abel Rosa. Nasceu em Lisboa,
tem 55 anos, é "software marketing manager" na IBM Portuguesa e
afirma não resistir a "qualquer objecto relacionado com os Beatles e a sua
história". Começou a acumular material na época em que a banda de
Liverpool ainda se encontrava em actividade e nunca mais parou. "Sempre
que viajava, procurava locais onde encontrar essencialmente discos de
vinil", explica. Hoje em dia, abastece-se em lojas da especialidade em
Lisboa, "como a 'Discolecção'". Uma alternativa "é o imenso
mercado de oferta do eBay, onde tudo se encontra, embora, muitas vezes, a
preços exorbitantes e especulativos". Discos, livros, revistas, bonecos,
brinquedos, "pins", cartazes, fotografias, relógios e filmes integram
uma colecção a que já perdeu a conta. "Francamente, não sei com
exactidão", responde, quando se tenta saber quantas peças possui. Depois
de dois livros dedicados às discografias portuguesas, em 45 rotações, dos
Beatles e dos Rolling Stones, Abel Rosa planeia fazer uma obra semelhante, mas
dedicada às capas dos "singles" nacionais de bandas britânicas dos
anos 1960 e 1970. "Dos Beatles, encerrei um ciclo", afirma.