Sou uma pessoa de ritos, e o meu rito nesta data é sempre o mesmo: tocar a obra completa dos nossos adorados Beatles do primeiro ao último disco. É que Love Me Do, o primeiro single, faz hoje anos...
É certo que levar o ritual a bom porto anuncia-se este ano complicado, que ainda vou a meio do oitavo álbum,
Sgt Pepper's...
Estou delirante, com a música aos berros, a cantar em coro com eles as letras que continuo a saber de cor. Como estou de janela escancarada (o escritório é nas traseiras), de caminho faço uma boa acção, elevando o nível musical do bairro, bastante comprometido por alguém à direita, julgo que no prédio ao lado, que ao fim-de-semana põe entusiasticamente a tocar coisas que não sei identificar, mas cuja proveniência é comprovadamente abaixo de cão: no sábado passado reconheci o inefável
Sai da Minha Vida, da inefável Ágata (eu chamo-lhe Iágata, a
m'nina Iágata...). Nesse momento, confesso, vacilei: tenho um certo carinho pelo horror que nos proporcionou um momento de génio do génio que Herman José pode ser. Mas como, logo a seguir, veio outra coisa qualquer que berrava deslocada e repetitivamente
Meu Lindo Agosto (íamos no fim de Setembro), ripostei-lhe com a Cena da Loucura da
Lucia di Lammermoor. Vantagem clara de cá: ninguém tem melhores pulmões do que a minha adorada Dame Joan Sutherland... e a minha aparelhagem é melhor.
Hoje, morta de cansaço (experimentem carregar sete sacos daqueles grandes do Ikea carregados de livros, sempre a coisa mais pesada em qualquer mudança, para um segundo andar sem elevador e perceberão como o cansaço é justificado; o pior são os livros que ainda estão na mala do carro, que se traduzem em mais cinco ou seis sacos...), quando me instalei no escritório para começar a minha maratona de Beatles, vinha música do mesmo lado. Fiquei petrificada, que eram aqueles flausinos chamados Il Divo. Quando recuperei do choque, relativizei: não era surpreendente, antes condizia na perfeição. Não sei se os criaturos ainda estão para lá a debitar a sua medonha possidonice, os meus Beatles tocam mais alto! Mas, se estiverem, o bairro que escolha.
Escolhi para tocar aqui hoje a música que era o lado B de
Love Me Do:
P.S. I Love You. Detesto dizer que não gosto de coisas dos Beatles, mas a verdade é que nunca consegui gostar de
Love Me Do. Aquilo a que aqui se presta hoje homenagem, a homenagem que religiosamente todos os anos, desde 1982, presto, é pelo simbolismo, que nunca engracei com a canção. Mas temos o lado B, o mítico lado B, que nalguns casos acabava por ser, justamente, a música de que mais gostávamos. O melhor exemplo de que consigo lembrar-me é o lado B de
Daniel, de Elton John: nem mais nem menos do que o extraordinário
Skyline Pigeon, seguramente entre as suas dez melhores músicas.
Alguém me fala de outros lados B?
E agora, queridos leitores fiéis deste cantinho saudoso, devo-vos um pedido de desculpa: há um ano, nesta mesma data (ver
aqui), publiquei uma fotografia que julguei ser a capa original do
single de
Love Me Do. Não fora esta estranha mania que o Blogger tem de, ocasionalmente, nos apagar as imagens, não teria dado pela asneira. Fui em busca da fotografia, para a repor, e encontrei-a em tamanho muito maior, aquele que agora lá está. Percebi imediatamente a asneira. Aquilo é um desenho, e ninguém ia dar-se ao trabalho de desenhar os membros de um grupo no seu disco de estreia! Como tal, é apenas uma reedição do
single, não sei de que ano — mas hei-de descobrir. A fotografia que aqui figura hoje, essa sim, é a do
single original, pesquisei e encontrei. Espero estar desculpada.
P.S.
Update importante: já vou em
Magical Mystery Tour, o nono álbum! Já só faltam cinco, um deles duplo... Bom, a verdade é que faltam sete, que esta romagem de saudade não estaria completa sem
Past Masters I e
II, que recolhem as músicas saídas em
single que não entraram nos álbuns originais. Desejem-me, pois, uma boa noitada... :)
Obrigada, M., que me ofereceu a colecção completa (à excepção do álbum branco, que não conseguiu encontrar, e que viria ser-me oferecido pelo Vasco) no dia dos meus 31 anos, com a cumplicidade da minha querida Paulinha. Eu nem leitor de CD tinha ainda...