domingo, 28 de fevereiro de 2010

A discografia Portuguesa dos Beatles Singles e EP

Toda uma geração adorava (...adora) aqueles objectos redondos, negros e profundamente simples que nos davam alento, amores, paixões e amizades em apenas 45 Rotações Por Minuto ou como em cerca de 3 minutos o Mundo ficava melhor.
Não tinhamos walkmans ou ipod's mas tinhamos gira-discos de mala ou gira-discos tipo torradeiras que engoliam os discos....e claro a RÁDIO! Hoje quando se fala em remasterizações e sons clean não deixo de sorrir a pensar naquelas caixinhas onde já gostavamos daqueles sons e aprendemos a lição da POP e do ROCK e todos os outros cultos, sempre com um fascínio muito físico,  a capa...o retirar do disco...colocar no prato do gira-discos...lançar a agulha e depois aquele abandono agridoce...e está de volta, as novas gerações descobriram essa obra ao negro.

Em Portugal, os Beatles eram representados pela Valentim de Carvalho que em 1963 iniciou a edição dos seus discos através da etiqueta Parlophone. A título de informação só se começaram a fabricar LP em Portugal na década de 70, como resultado os LP os Beatles na década de 60 eram importados, só muito mais tarde sairam edições nacionais perfeitamente iguais à Inglesa.

A discografia Portuguesa de singles (2 músicas com ou sem capa) e EP (3 ou 4 músicas com capa) dos Beatles é única, procurada internacionalmente pelos coleccionadores de vinil, atingindo em alguns casos valores muito altos, as principais razões são:


  •  Alinhamento de canções diferente das outras edições internacionais


  •  Capas completamente originais recorrendo a enquadramento gráfico retocado das fotos


  •  Algumas edições com tiragem pequena, provavelmente 500 exemplares de cada, embora muitas edições atingissem os 1000/2000 exemplares 

Com o objectivo de dar a conhecer esse espólio, Beatles Forever vai iniciar uma série dedicada a essa discografia, vamos publicar todas as capas, contracapas, etiquetas e diferentes variações conhecidas.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Isto é que vai para aqui uma alegria!

Foi só entrar um novo autor, foi só o Ié-Ié publicitar-nos... e vejam o acréscimo de visitas de ontem para hoje!

E ainda nem são nove horas, sabendo que o maior número de visitas é sempre depois do jantar.

Bob Dylan o álbum John Wesley Harding e os Beatles

Bob Dylan e o álbum John Wesley Harding, misterioso, iniciático e com os Beatles...Consegue Ver?



Todos conhecem a importância de Bob Dylan na história da música popular. Os Beatles, assumiram e assimilaram muitas influências, o encontro com Dylan dá inicio a uma dessas fases criativas (há quem lhe chame outra coisa....com substâncias químicas à mistura), em 1967 Dylan edita um dos seus álbuns mais misteriosos e talvez dos mais irritantemente esquecidos, John Wesley Harding.
 
Em teoria este John Wesley Hardin (JWH) era um pistoleiro (assassino, racista entre outras coisas....) originário do Texas (1860). Mas Dylan adiciona um G no final (Hardin / Harding) aqui começa o culto de que JWH indicia 3 das letras do tetragrama JHWH ou seja Jehov(w)ah...o nome de Deus, estamos perante o Gospell do Deus Dylan.
 
Além da extraordinária música All Along the Watchtower (que George adorava, era um grande fã de Dylan....) que Jimi Hendrix fez uma notável versão, o que é que afinal os Beatles têm a ver com esta história?
 
Em junho de 1967 os Beatles editam Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, como sabem um dos primeiros álbuns conceptuais, Dylan é um dos que aparece na capa, além das influências claras na composição, veja-se o texto de A day in the life, agora é a vez de os Beatles influenciarem Dylan que avança com a resposta John Wesley Harding em Dezembro do mesmo ano.
 
A capa de John Wesley Harding encerra um segredo do universo Beatle, no tronco escuro por trás de Dylan (ao centro) e no topo, voltando o álbum ao contrário e utilizando uma lupa ou zoom, estão as fotografias dos 4 beatles escondidas, será mesmo?

Beatles Forever ou Aqui, Ali Ou Em Qualquer Lugar?


Mas que honra Teresa.....por certo vou ter de estar FABulosamente à altura desta mulher que escreve em piloto automático e muito bem! Aos Bloguistas não esperem copy/paste do Wikipédia ou GOOGLAÇÕES similares, aqui vão encontrar crónicas genuínas, roteiros de emoções, discografias pouco prováveis e fotobiografias não exploradas.

O segredo dos Beatles vai ser revelado ( não estou a referenciar o livro do meu amigo Pedro Freitas Branco que se recomenda) nem mais do que a eterna banda sonora da vida de todos nós....uma frase, uma nota, uma foto e tudo faz sentido.

Nada disto sem a aprovação do meu Mestre e amigo Luis Pinheiro de Almeida que com a sua eterna Teresa Lage ( há sempre uma Teresa...) sabem e amam como ninguém esta coisa simples que os Beatles nos ensinaram, querem saber o quê? Não adianta...não é para explicar é para sentir, viver sem saudosismo mas com um brilho nos olhos, eu e a minha OLD SOUL vamos tentar, até porque para nós os Beatles não são Forever são Aqui, Ali Ou Em Qualquer Lugar.

Parceria beatlemaníaca

(fotografia retirada da revista Blitz de 09.09.09)

É uma honra e uma alegria para o Beatles Forever! poder contar, a partir de hoje, com mais um autor.

Cada vez vou dispondo de menos tempo e este cantinho tem sido vergonhosamente negligenciado. A colaboração do Abel vai dar-lhe um novo alento. E, se eu ainda vou sabendo alguma coisa sobre os nossos queridos Beatles, o Abel sabe incomparavelmente mais e tem um fascinante espólio reunido ao longo de muitos anos, com muitas histórias cheias de interesse para contar.

Ficamos todos a ganhar. Bem-vindo, Abel! Venham essas histórias, venham essas imagens!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

George & Pattie

Como eram novos! Como eram bonitos!

Curiosamente, ainda ontem, no almoço do Ié-Ié, a Teresa Lage e eu falámos dela, de Pattie Boyd. A mulher para quem George escreveu Something. A música que John Lennon considerava a melhor de Abbey Road.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Let It Be e o fim à vista


Na minha preciosa caixa de 9 de Setembro, Let It Be, como sempre, vem mal ordenado. Bem sei que foi o último álbum a sair, já depois da separação do grupo, a 10 de Abril de 1970. Let It Be só viu a luz do dia quase um mês depois, a 8 de Maio, mas foi gravado antes de Abbey Road, e eu respeito escrupulosamente a ordem cronológica dos discos.

É uma obra que me magoa estranhamente. Andava eu ainda no Liceu, tinha 16 anos, comprei uma revista inteiramente dedicada aos Beatles, deve estar algures em casa da minha Mãe, nunca deitaria tal coisa fora. A revista (que a professora de Introdução à Política até me pediu emprestada) definia Let It Be em palavras que nunca mais esqueci, tanto concordo com elas: «that strange, sad documentary of a group tearing itself into pieces».

Nada mais verdadeiro. Tem algumas músicas magníficas, é certo. Mas persiste uma sensação regelada de fim, de desarmonia. Os quatro tinham crescido em direcções diferentes, nada havia já a fazer. O grande prodígio, para mim, é terem ainda, depois disto, conseguido produzir um último milagre:  Abbey Road.

No Gira-discos: Across The Universe
(provavelmente a minha favorita)

A maratona continua


Vou a meio de Sgt. Pepper's. E, como sempre, tento imaginar o que teria sido, nesse longínquo dia 1 de Junho de 1967 (o grande ano da música!), chegar a casa com o disco acabado de comprar. Numa ansiedade febril, tira-se o envelope interior, em que está a preciosa rodela de vinil, ainda virgem. Mira-se e remira-se a capa surpreendente, tão diferente de qualquer coisa até aí publicada. Põe-se o disco a girar no prato, baixa-se a agulha com mil cuidados. E depois... surge aquela feérica explosão de sons. Nunca tinha havido nada assim.

Não, não é o meu disco preferido dos Beatles. Mas consigo perceber muito bem que continue a ser considerado, ano após ano, e por gente que percebe bem mais disto do que eu, o disco mais importante de sempre.

47 anos!



Esta capa tem uma longa história, nascida da minha ignorância e de ter apenas dois anos acabados de cumprir no dia histórico em que o single de Love Me Do foi lançado, faz hoje 47 anos.

Pela primeira vez, e graças ao Luís do Ié-Ié, posso pôr aqui a verdadeira e genuína capa do disco. E vale a pena conhecer-lhe a história, tal como ele ma contou há alguns meses:


«Esta é uma 1.ª edição legítima, segundo a "bíblia" Beatles Worldwide II, de Christoph Maus.

Distingue-se das edições posteriores porque a etiqueta não tem inscrito "Made In G. Britain". Só as edições posteriores, a partir de 1963, têm essa inscrição.

Donde este single saiu mesmo a 5 de Outubro de 1962!

Consegui esta pérola no eBay precisamente no dia de Natal de há 6 anos! Foi a prenda de Natal de mim para mim!»

Obrigada, muito obrigada, Luís!


Hoje é o dia da minha homenagem anual e por inteiro aos Beatles. Que foram, juntamente com Mozart, o meu primeiro grande amor na Música. Cá em casa não se ouvirá hoje outra coisa até tocar a obra completa deles, do primeiro ao último disco (Past Masters incluído). Aos berros, que há que educar esta vizinhança que insiste em coisas esquisitas que me arrepiam quando consigo identificá-las. A dançar pela casa, que a alegria é irresistível. A chorar às vezes, porque há músicas que me cortam o coração em bifes muito fininhos. Este ano com qualidade redobrada, que pela primeira vez vou ouvir por inteiro a nova edição de 09.09.09.

É coisa para o dia todo, num ritual que cumpro desde 1982. Quando chega ao fim estou sempre emocionalmente exausta, tantas as coisas que a minha saudade revisitou em pensamento. Quando chego ao fim sei sempre, com uma certeza acrescida, que a frase final deles, na última música do último disco (e desculpem a redundância, mas tenho de frisar isto), é uma das maiores verdades desta vida:

«And in the end the love you take is equal to the love you make.»

Ou devia ser.
No Gira-discos: Please Please Me

sábado, 26 de setembro de 2009

Abbey Road — 40 anos!


Há mais de dois anos que tinha esta data assinalada na agenda do Google. Que, muito amavelmente, logo pelas sete da manhã me lembrou este aniversário tão importante: os 40 anos do último disco dos Beatles, possivelmente o que me é mais querido. Li muito sobre Abbey Road por essa blogosfera fora, ninguém contou o disco tão bem como o Rato, do Rato Records.

Eu não saberia escrever coisa tão minuciosa, tão completa.  E porque não há aqui ambição de brilho, apenas amor pelos Beatles, fiquemos com o melhor que li. O autor autorizou alegremente, até me mandou o HTML da sua entrada. De nada me serviu, tão diferentes são as formatações dos nossos blogues. O dele com fundo claro, este com fundo escuro. Foi um duro labor, meus amigos. Mas por uma nobre causa: o nosso comum amor aos Beatles. Passo a palavra ao Rato. É tudo dele, texto e fotografias. É tudo nosso, que os Beatles são este amor sem princípio nem fim.


Originally Released on LP Apple PCS 7088
(UK 1969, September 26)


Último álbum gravado pelos Fab Four (como não podia deixar de ser, n.º 1 em ambos os lados do Atlântico), embora Let It Be fosse editado posteriormente, já em 1970, é porventura o mais perfeito de toda a história da música rock. E isto apesar de nada o fazer prever. Com efeito, desde a morte de Brian Epstein que as tensões entre os quatro Beatles não tinham parado de crescer. Atingira-se um ponto em que não conseguiam concordar em nada, sobretudo na música que cada um queria fazer. No campo da gestão do património do grupo a guerra era total, entre John Eastman (advogado de sucesso e pai de Linda Eastman), obviamente apoiado por McCartney e Allen Klein, apoiado por Lennon, com conivência dos outros dois Beatles (Klein manteve contrato com os três até 1977). O resultado dessa guerra traduziu-se em mais uma razão para o fim do grupo.



Antes, porém, e num último tour de force, McCartney sugeriu a George Martin a gravação de mais um álbum, no sentido de tentar atenuar um pouco as relações entre os membros do grupo. Martin impôs duas condições básicas: ser ele a controlar toda a produção (como nos “velhos” tempos) e ter a concordância inequívoca de John Lennon para tal projecto. Por estranho que tivesse parecido na altura, Lennon acedeu prontamente, não levantando qualquer problema. George Emerick foi chamado para engenheiro de som, tendo Alan Parsons e Philip McDonald como assistentes, e Tony Banks como operador das fitas de gravação. Estava assim constituída a tripulação que levaria aquele barco a porto seguro.



 Apesar do prévio acordo, a estrutura de Abbey Road foi bastante discutida. John queria que fosse um album de rock 'n' roll puro e simples, enquanto Paul antevia antes uma pop opera de diferentes canções, todas ligadas num longo medley. O resultado, pelo visto, satisfez ambos.




O lado 1 ajusta-se mais às ideias de John, que contribuía com duas faixas: Come Together e I Want You; Paul assinava mais duas, Oh! Darling e Maxwell's Silver Hammer, e George e Ringo ficavam-se com uma cada, respectivamente Something e Octopus's Garden.


COME TOGETHER (Lennon/McCartney)

Gravado em 21, 22, 23, 25, 29 e 30 de Julho de 1969

Composta por Lennon a pedido do guru do LSD, Timothy Leary (que na altura concorria a governador da Califórnia com o slogan “Let’s Get It Together”), esta faixa de abertura (que introduz pela primeira vez a técnica da slide guitar de Harrison) foi inspirada no tema You Can’t Catch Me, de Chuck Berry, do qual Lennon copiou inclusive parte de um verso. Recentemente, nas notas para o disco Love, George Martin escreveu que Come Together é a sua música favorita de toda a carreira dos Beatles.

SOMETHING (Harrison)

Gravado em 2 e 5 de Maio; 11, 16 de Julho e 15 de Agosto de 1969

Inspirada numa estrofe de uma canção de James Taylor — Something in The Way She Moves, esta é sem dúvida a mais famosa canção de George Harrison, apesar de um dia o crooner Frank Sinatra ter dito que a considerava o melhor tema de Lennon/McCartney. A musa inspiradora foi Pattie Boyd, na altura ainda mulher de George, mas que viria a trocar o Beatle pelo amigo Eric, que de igual modo se deixou enlear em toda aquela luz inspiradora (Layla, Wonderful Tonight).

Something, escrita durante as gravações para o White Album, é marcada por uma melodia belíssima e representa a maturidade de Harrison como compositor. Originalmente a música terminava numa longa jam session e a orquestra de 21 músicos foi adicionada três meses depois da gravação original. Chegou a ser “oferecida” em primeira mão a Joe Cocker (que a gravaria mais tarde), mas tal decisão foi repensada e, felizmente, foram os Beatles que primeiro a gravaram. Lançada também como single, foi o primeiro 45 rotações a ter uma música de George Harrison no lado A (o lado B era Come Together). É a melhor canção do álbum, segundo Lennon, e a melhor de George, segundo McCartney, que no dia 29 de Novembro de 2002 a cantou, juntamente com Eric Clapton, no Concert for George, um ano após a sua morte. Será que Pattie Boyd se encontrava na assistência?






MAXWELL´S SILVER HAMMER (Lennon/McCartney)
Gravado em 9, 10, 11 de Julho e 6 de Agosto de 1969
Uma música de Paul no estilo de Sgt. Pepper's. Originalmente deveria fazer parte do disco Let it Be, já que o filme mostra o grupo a ensaiá-la, mas só foi gravada meses mais tarde. A letra conta a história de um maníaco homicida que mata toda a gente com o seu martelo de prata. Paul canta, toca guitarra e piano, e pela primeira vez num disco dos Beatles é usado um sintetizador Moog, um avanço tecnológico na época. John não participou na gravação por, segundo ele, a canção ser mais uma ideia estapafúrdia de Paul; e uma bigorna é tocada por Mal Evans para dar o som oco do martelo (hammer).

OH! DARLING (Lennon/McCartney)
Gravado em 20 e 26 de Abril; 17, 18, 22 e 23 de Julho; 8 e 11 de Agosto de 1969

Esta canção de McCartney é mais uma brincadeira ao estilo dos anos 50. Para poder realizar o vocal gritado e rasgado que caracteriza a música, McCartney gravava apenas uns versos da canção por dia, no início da manhã, para que a sua voz tivesse o tom e a força necessários. No álbum Anthology 3 é possível ouvir uma outra versão cantada por John Lennon.





 OCTOPUS'S GARDEN (Starkey)

Gravado em 26, 29 de Abril e 17, 18 de Julho de 1969

A segunda música de Ringo a ser gravada pelos Beatles (a primeira fora Don´t Pass Me By, do White Album), e o seu primeiro grande sucesso. Foi inspirado numa viagem à ilha da Sardenha, quando Ringo se cruzou com uma guia turística que falava sobre a vida dos polvos. A guia dizia que os polvos, para se protegerem, juntavam pedras coloridas em frente das suas tocas, criando uma espécie de jardim. Daí o título, Octopus’s Garden. A letra simples que lembra temas infantis, a simpatia de Ringo e a competência dos outros Beatles em acompanhá-lo tornaram Octopus's Garden um número muito querido entre os fãs ao longo dos anos. Além dos instrumentos convencionais, Paul toca piano, e são usados alguns efeitos como bolhas num copo de água sopradas por Ringo, e vozes modificadas por amplificadores.


I WANT YOU (SHE´S SO HEAVY) (Lennon/McCartney)

Gravado em 22, 23 de Fevereiro; 18, 20 de Abril e 8, 11, 20 de Agosto de 1969

Escrita por John para Yoko, este tema é mais um instrumental do que propriamente uma canção convencional, já que contém apenas duas frases. A parte She´s So Heavy vem de outra música de John, que foi unida à primeira. É uma das músicas mais longas dos Beatles (perto de 8 minutos). A guitarra solo é de John, que toca o moog até ao final, quando a música é abruptamente interrompida (o que na verdade aconteceu foi a fita de gravação ter terminado, e John achar interessante deixá-la assim na mistura final). 20 de Agosto de 1969, dia em que a canção foi terminada, acabou por ser a última vez que todos os Beatles estiveram juntos a tocar num estúdio.




O lado 2 contém então a suite desejada e escrita por Paul (um total de nove temas, desde You Never Give Me Your Money até Her Majesty), além de mais dois temas iniciais: Here Comes The Sun, de George, e Because, de John. O resultado global é magnífico, não se conseguindo imaginar um melhor testamento musical.

HERE COMES THE SUN (Harrison)

Gravado em 7, 8, 16 de Julho e 6, 11, 15, 19 de Agosto de 1969

Outro grande sucesso de George Harrison. Composta nos jardins da casa de Eric Clapton (só um inglês sabe como o sol na sua terra é bem-vindo) e feita apenas com variações no acorde D (ré) da guitarra. É um dos trabalhos mais melódicos dos Beatles. George toca os violões e o seu recém-adquirido sintetizador moog (mais tarde gravaria um disco solo só com esse instrumento — Electronic Sound).


BECAUSE (Lennon/McCartney)

Gravado em 1, 4 e 5 de Agosto de 1969
Um dos pontos altos de Abbey Road. Esta música não é de Paul McCartney, e sim de John Lennon, num dos seus momentos mais inspirados. Yoko tocava a Moonlight Sonata de Beethoven ao piano quando John pediu que a tocasse ao contrário. Daí surgiu a melodia de Because, um dos melhores arranjos vocais feitos pelo Beatles, dobrados algumas vezes (cada vocal foi sobreposto três vezes em cada microfone, totalizando nove vozes. As versões solo dos vocais podem ser ouvidas na Anthology 3). George Martin toca cravo, John guitarra, Paul baixo, e George Harrison o seu moog. Enquanto gravavam exigiram a presença de Ringo no estúdio, mesmo sem participar, apenas para partilhar aquele momento de harmonia, segundo George Emerick.





YOU NEVER GIVE ME YOUR MONEY (Lennon/McCartney)
Gravado em 6 de Maio; 1, 11, 15, 30, 31 de Julho e 5 de Agosto de 1969
Aqui começa a grande obra de Abbey Road, o pot-pourri formado pelas canções inacabadas de John Lennon e Paul McCartney. Esta foi criada por Paul e divide-se, na verdade, em três temas distintos: Em You Never Give Me Your Money, a música em estilo clássico e a letra pessimista reflectem a sua insatisfação com os rumos da banda, principalmente os financeiros – uma nota de culpa para Allen Klein. «Ele só nos dava papéis e mais papéis e quando perguntávamos sobre dinheiro e a situação da Apple ele desconversava, dizendo que éramos músicos e não homens de negócios.» Logo em seguida entra Magic Feeling, com a voz de Paul lembrando cantores dos anos 50 e perspectivando um beco sem saída: «But all that magic feeling / Nowhere to go.» As vozes referenciais de Because e Sun King entram aqui também. Em seguida vem One Sweet Dream, que descreve um sonho dourado, algo como dar a volta por cima: «One sweet dream / Pick up the bags and get in the limousine.» Nessa parte da canção, George usa arpejos similares aos de Here Comes The Sun com um amplificador Leslie, o que regista essa espécie de guitarra que mais tarde se tornaria sinónimo do “estilo Harrison”. E para finalizar, com um baixo inspirado e sons de grilos e outros animais, uma frase com rima, onde os Beatles contam até sete e dizem que «todas as crianças boazinhas vão para o céu.»


SUN KING (Lennon/McCartney)

Gravado em 24, 25 e 29 de Julho de 1969

Canção escrita por Lennon, cujo nome original era Here Comes The Sun King, mas foi encurtado para Sun King, a fim de evitar confusões com a música de Harrison Here Comes The Sun. Com um vocal triplo não tão elaborado como em Because, a música utiliza ainda algumas palavras em espanhol, italiano e português. Segundo Lennon: «Começámos a brincar a falar outras línguas e acabámos por misturar tudo! Paul sabia um pouco de espanhol que aprendeu no colégio, inventámos algumas palavras sem sentido e o restante tirámos de jornais». John compõs a música, usando a técnica do dedilhado que havia usado em Julia, do White Album. Outro ponto interessante nesta música foi o efeito “cross-channel movement”, que consistia em mudar o som de um canal para o outro (da direita para a esquerda e ao contrário, simultaneamente). Em entrevista de 1987, George disse que, para o timbre da guitarra, se inspirou em Albatross, dos Fleetwood Mac.


MEAN MR MUSTARD (Lennon/McCartney)

Gravada em 24, 25 e 29 de Julho de 1969

Tema de Lennon composto na Índia, era para fazer parte do White Album. Baseado num facto real descrito por um jornal sobre um homem miserável que escondia dinheiro para que as pessoas não o forçassem a gastá-lo. Foi encontrada uma versão demo gravada na casa de Harrison em Esher, que aparece em Anthology 3; nela é possível saber que o nome da irmã de Mustard era Shirley, mas que foi mudado para Pam para fazer a transição para a música seguinte, Polythene Pam.


POLYTHENE PAM (Lennon/McCartney)
Gravado em 25 e 28 de Julho de 1969

Para compor Polythene Pam, Lennon inspirou-se no encontro que tivera anos antes com um amigo poeta de Liverpool, Royston Ellis (descrito por John na famosa entrevista da Playboy, em 1980, como «o homem que apresentou os Beatles às drogas») e a sua namorada Stephanie. Na ocasião, ela estava vestida com uma roupa de polietileno. Há também a história sobre Pat Hodgett, fã dos tempos do Cavern, que costumava comer polietileno e era conhecida como Poliythene Pat.


SHE CAME IN THROUGH THE BATHROOM WINDOW (Lennon/McCartney)

Gravado em 25 e 28 de Julho de 1969
Mike Pinder, dos Moody Blues, contou a McCartney uma história de uma groupie que tinha entrado pela janela da casa de banho de Ray Thomas (outro membro dos Moody Blues) para passar a noite com ele. Paul achou a situação divertida e resolveu escrever um tema sobre o episódio.




 


GOLDEN SLUMBERS (Lennon/McCartney)

Gravado em 2, 3, 4, 30, 31 de Julho e 15 de Agosto de 1969
Adaptação de um poema do século 17 de Thomas Dekker. Uma bonita canção de Paul, que a compôs durante uma estada em casa do pai, em Heswall.


CARRY THAT WEIGHT (Lennon/McCartney)


Gravado em 2, 3, 4, 30, 31 de Julho e 15 de Agosto de 1969
Outra música de Paul, que parece aproveitar nova ocasião para lançar mais umas farpas a Allen Klein: «Boy, you're gonna carry that weight / a long time.» No entanto, no filme Imagine, Lennon afirma que nesta canção Paul se referia a todos os outros Beatles. John não participou nas sessões destes últimos dois temas (apenas gravou os backings posteriormente) devido a um acidente de carro com Yoko e Julian, que o obrigou a passar uns dias no hospital.


THE END (Lennon/McCartney)
Gravado em 23 de Julho e 5, 7, 8, 15 e 18 de Agosto de 1969
O final do disco e praticamente a despedida da banda. Coincidência ou não, cada um dos Beatles dá o seu adeus. Ringo faz o seu primeiro solo de bateria, e logo depois entram as guitarras de Paul, George e John (nesta sequência), e cada um intercala o seu solo. Após o break, o grand finale: «And in the end, the love you take is equal to the love you make.» Lennon disse na entrevista da Playboy: «Aquilo é Paul McCartney. A frase final carrega uma filosofia cósmica que prova que quando Paul quer algo, ele consegue.»


HER MAJESTY (Lennon/McCartney)
Gravada em 2 de Julho de 1969
Esta faixa escondida do álbum (não creditada no verso da capa), que aparece cerca de 20 segundos de silêncio após The End, deveria estar no medley entre Mean Mr Mustard e Polythene Pam, mas o resultado não ficou bom e o engenheiro de som Malcom Davies incluiu-a na cópia de acetato do disco. Paul McCartney gostou e a música acabou por sair assim também no disco original. Uma homenagem de Paul à Rainha, num número acústico em que toca viola.






A CAPA


A famosa fotografia da capa do álbum foi tirada do lado de fora dos estúdios da EMI em 8 de agosto de 1969 por Iain Macmillan (morreu em 2006). A sessão de fotos durou uns escassos quinze minutos. John, sempre muito apressado, só queria «tirar a foto e sair logo dali, deveriamos estar a gravar o disco e não a posar para fotos idiotas». Foram feitas seis fotos. Paul McCartney escolheu a que achou melhor, visto ter sido ele quem teve a ideia do título e da imagem para o novo álbum. Até então houvera o sério risco de o álbum se chamar Everest, apenas porque era essa a marca dos cigarros que Geoff Emerick fumava. Inclusive, até se tinha equacionado uma ida aos Himalaias para se tirar uma fotografia dos Beatles junto ao célebre monte.

A foto foi objecto de mais rumores e teorias de que Paul estaria morto, vítima de um acidente de moto em 1966. Apesar de ter sido apenas uma brincadeira e puro marketing do grupo, a lenda ainda é assunto para alguns beatlemaníacos. Na capa do LP, os Beatles estão a atravessar a rua numa passadeira a poucos metros dos Estúdios Abbey Road (que só após o lançamento do álbum seriam assim designados).







A foto conteria supostas pistas que dariam força ao rumor de que Paul estava morto: está descalço, fora de passo com os outros, está de olhos fechados, tem o cigarro na mão direita, apesar de ser canhoto, e a placa do carocha estacionado (pertencente na altura a um turista sueco que recusou tirar dali o carro quando isso lhe foi pedido) é “LMW”, referindo serem as iniciais de “Linda McCartney Widow” e abaixo o “28IF”, supostamente referindo-se ao facto de que McCartney teria 28 anos se (if em inglês) estivesse vivo (o I em “28IF” é realmente um “1”, mas isso é difícil de se ver na capa). Um contra-argumento é que Paul tinha somente 27 anos no momento da publicação de Abbey Road, embora alguns interpretem isso como ele teria um dia 28 anos se estivesse vivo). Os quatro Beatles na capa, segundo o mito “Paul está morto”, representariam o Padre (John, cabelos compridos e barba, vestido de branco), o responsável pelo funeral (Ringo, com um fato preto), o Cadáver (Paul descalço — como um corpo dentro de um caixão), e o coveiro (George, em jeans e com uma camisa de ganga). Outra suposta pista seria que na contracapa do álbum, do lado esquerdo da palavra Beatles, haveria oito pontos que, ligados, formariam o número 3 (sendo então “3 Beatles”). O homem no passeio, à direita, é Paul Cole, um turista dos EUA que só se deu conta  de que estava a ser fotografado quando viu a capa do álbum, meses depois.




CURIOSIDADES

— É o 1.º álbum do grupo a ser editado apenas em stereo (era usual, até então, os álbuns serem editados simultaneamente em mono e em stereo), inovação rapidamente adoptada pela maioria das companhias discográficas.


— Durante as sessões de Abbey Road foram ainda gravadas mais seis faixas, não aproveitadas na edição final do álbum:


—  What’s The New Mary Jane, que John pretendia editar como um single da Plastic Ono Band, por o tema ter sido rejeitado pelos outros três; mas depois desistiu da ideia


Junk, editada posteriormente no primeiro álbum a solo de Paul, McCartney


Not Guilty, de Harrison, regravada em 1979 e incluída no álbum George Harrison



When I Come To Town, Four Nights In Moscow e I Should Like Tom Live Up A Tree, que, tal como a primeira, continuam sem ver a luz do dia.







 — Abbey Road é o álbum mais vendido dos Beatles.






— Alan Parsons, o assistente de som, produziu o clássico de 73 The Dark Side of the Moon, da banda inglesa Pink Floyd.





— O carocha da capa está actualmente no museu da Volkswagen em Wolfsburg, Alemanha.



— A fotografia da capa mostra os Beatles a atravessarem a passadeira em Abbey Road, afastando-se do edifício dos estúdios. Este pormenor, mais o título da penúltima faixa (The End), fazia temer o pior. E o pior aconteceu realmente, seis meses depois, em 10 de Abril de 1970, quando Paul anunciou oficialmente ao mundo a extinção do grupo mais famoso de todos os tempos.


















No Gira-discos: Golden Slumbers/Carry That Weight/The End